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A outra

23 de June de 2010, 12h08

– Oi. Você quer ser a outra?

A pergunta, por mais claras que tenham sido as palavras, parecia não fazer sentido. Ela fitou o rapaz através da fumaça do cigarro que alguém fumava no mesmo balcão. A iluminação do bar não ajudava, mas ela pôde ter certeza: não conhecia aquele sujeito.

Por infindáveis e incômodos dez ou quinze segundos ela não soube o que responder. E por esse tempo, muito ela pensou. Tentava achar uma base para ao menos entender o que acontecia, mas se sentia Alice caindo para o País das Maravilhas – sem saber se Maravilhas é o que a aguardava, e com uma intuição que dizia que nada de maravilhoso haveria ali. Suas dezenas de expressões incertas, seus olhares curiosos e esquivos, sua boca que abriu duas ou três vezes sem que a língua achasse alguma palavra a ser dita, tudo no seu rosto deixava claro que ela estava perdida.

Pensou em manda-lo à merda, mas não tinha certeza se se tratava de uma cantada grosseira ou de alguma brincadeira de algum amigo que ela não conseguiu desvendar. Pensou que talvez o rapaz estivesse sendo sério, ou vulgar, ou sarcástico. Não fazia ideia. Ele até era bonito, ela já havia reparado nele antes naquela mesma noite. Mas bonito e grosseirão? Não… credo!

Fitou-o novamente: ao contrário dela, os olhos dele não hesitavam, encarando como quem assegurasse que a pergunta era séria e que ele esperava uma resposta. Apenas uns dois segundos pareciam ter passado para aqueles olhos, mas o desconforto dela já a torturava. Eu não quero um namorado, eu não quero coisa séria, pensou. Se ele é bonitão, posso responder qualquer coisa para prolongar a conversa e descobrir se ele é interessante ou não – afinal, a abordagem, por mais que tenha soado rude, foi atrevida, diferente. E ele realmente é atraente. Mas «a outra»… como assim? Que bruto, que tipo de homem trata mulher assim. Ele deve ser casado. Ou só namora. Será que ele é fiel? Não! Claro que não. Será que é namorado de alguma amiga minha? Não seria ele aquele moço que a Jéssica conheceu a pouco na pista de dança, e ele está me pregando uma peça enquanto ela foi ao banheiro? Será que ele é o namorado que a Tati me apresentou no churrasco outro dia e eu mal dei atenção?

Turbilhões de hipótese, mas ainda não entendia a pergunta. Sem entende-la, não conseguia esboçar uma resposta. Desconfortável, se sentindo orgulhosa por ter chamado a atenção dela, se sentindo também humilhada pela palavra chula e pelo sentido chulo que ele inferiu. E, principalmente, já se sentindo em desvantagem: os olhos dele estavam ali, certos, esperando algo dela; e ela não conseguia encaixar as peças todas do enigma. Isso trazia um sentimento ainda pior, pois a única coisa que sabia era que seu próprio rosto estava denunciando que ela estava sem chão, perdida, vencida. Ódio: sentimento impetuoso que ignora a razão. Foi isso que surgiu de repente. Ela não pensou. O ódio surgiu e devastou todos os eternos dez ou quinze segundos de expressões patéticas com um grande estalo que foi ouvido por todos ao redor. Um tapa seco, mudo como ela mesma, foi a única coisa que fez com que aquele homem mudasse sua expressão misteriosa.

Um sorriso cafajeste se desenhou no rosto dele. Uma sobrancelha arregalada, no dela. Mais uma vez, ela se sentiu perdida. Ele pareceu continuar dominando-a, se movia com certeza em cada gesto. Levantou a mão – será que ele vai revidar? pensou ela, sem conseguir se mover. A mão dele levantou, mas foi somente até o balcão. O braço esticou até que a alça do caneco de cerveja fosse alcançado. Ele virou as costas para o balcão e saiu de perto dela.

Ela, assustada, ainda não compreendia o que tinha acontecido, mas ficou, pela primeira vez naqueles segundos, plenamente feliz. Tinha dado um fim na incômoda situação. Até ponderava, insegura, sobre se esse teria sido o melhor jeito de resolve-la. Ele também saiu satisfeito. Se deliciou decifrando as reações vacilantes no rosto dela. E se convenceu que observar as pessoas tentando decidir entre a razão e a emoção vale mais do que uma noite de sexo. 

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Lacunas

21 de June de 2010, 15h45

Tem coisas que acho que vocês, meus leitores, talvez não percebam – coisas que estão aqui, nessas linhas toda: esse blog vive das minhas lacunas. Olhando pelo outro lado, posso dizer que minha vida dita profissional vive das lacunas deste blog. Quando me aproximo demais da ciência, esse blog fica às moscas. Igualmente, quando me aproximo demais da poesia, não escrevo um “a” acadêmico naquela minha vida dita profissional.

Não sei se é uma pena. Acho que esse vai-e-volta faz parte da minha vida, do meu oito-ou-oitentismo.

Mas quando sonho em conciliar minha vida dita profissional e meus relampejos  de pseudo-escritor, compreendo com brusca clareza outro coisa estranha: a razão pela qual, vez ou outra, me vem um neurônio com as mãos assentadas na cintura e, com as sobrancelhas eriçadas, me encara:

– Mas por que você não virou jornalista?

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Pessoas e carros

08 de June de 2010, 10h41

Sempre achei os diálogos dos roteiros do Tarantino pontos fortíssimos de seus filmes. Esse trecho sempre foi um dos meus favoritos (e olha que é difícil pegar uma cena do Tarantino e rotular de favorita), e é ainda mais depois de dois anos estudando a relação de pessoas com seus carros. Hoje, ouvindo a história do João Vítor, que teve seu carro riscado, resolvi transcrever tal diálogo do filme aqui.

Still got your Malibu?
– Oh, man… you know what some fucker did to it the other day?
– What?
– Fuckin’ keyed it.
– Oh man, that’s fucked up.
– Tell me about it. I had in storage for three years. It was out five  days and some dickless piece of shit fucked with it.
– They should be fuckin’ killed. No trial, no jury, straight to execution.
– I just wish I could’ve caught him doin’ it. I’d have given anything to catch ‘em doin’ it. It’a been worth his doin’ it, if I coulda just caught that asshole. It’d be worth him doing’ it just so I could’ve caught him.
– What a fucker.
– What’s more chicken-shit than fuckin’ with a man’s automobile?I mean, you don’t fuck another man’s vehicle.
– You don’t do it.
– It’s just against the rules.

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2010 em prosa e desafio?

04 de January de 2010, 00h55

2010 começou com uma vontade palpitante de escrever em prosa. Criar personagens ácidos, tramas e diálogos. Mas nunca proseei – e estou com medo de não saber prosear. Então o desafio seria perder o medo?

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Enfeite de Natal pendurado!

09 de November de 2009, 12h24

Papai Noel enforcado

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Para começar o semestre, sem mestre

03 de August de 2009, 23h23

Segunda-feira de se abundar na cadeira. Sem respirar. Desde manhã, sem manha, até quase amanhã.

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Tudojunto?

03 de August de 2009, 22h28

Estava lembrando que eu adorava uma propaganda do Itaú na qual o filhinho virava pro pai e perguntava:

– Pai, por que que “tudo junto” escreve separado e “separado” escreve tudo junto?

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Voltei a tempo

26 de July de 2009, 20h56

Achei o título propício. Propício em relação ao que eu queria dizer, e propício em relação à grande lacuna de meses sem sequer um “ah” nesse blog.

O fato é que voltei a tempo. Fui ao NDesign Pernambuco 2009 mas voltei para casa no meio do evento pois tinha que terminar um artigo que tenho que entregar amanhã. Fiquei me perguntando, antes de marcar a volta, se não daria para ficar um pouco mais no evento. Como só terminei o artigo, agora, praticamente as 20h da véspera da entrega, tenho a resposta: não, não dava para ficar mais no N.

Em outras palavras, literalmente aproveitei esse N o máximo que pude!

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Design e sociologia

23 de March de 2009, 03h36

Estou afim de me jogar de vez na sociologia, mas acho que não dá. Design ainda é meu ganha pão. Na verdade hoje ganho o pão com a sociologia, mas o design ainda é a manteiga e o leite.

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Alô alô telemarketing

06 de March de 2009, 10h00

Certa vez eu morava sozinho e, com absoluta certeza, não tinha nenhum amigo que me chamaria de Sr. Eduardo ao telefone. Então o telefone toca, perguntando se o Sr. Eduardo estava. Juntando a forma de se referirem a mim com algum blablablá que ouvia ao fundo fiquei certo que era telemarketing. Saquei um tom de voz melancólico:

– O Sr. Eduardo está doente, internado na UTI a três dias. Você é alguma amiga?Quer deixar recado?

Um silêncio que conseguiu ser breve e prolixo no mesmo ato tomou conta da chamada. Acho que a falta de protocolo para esse tipo de resposta assustou a operadora, já que duvido que algum tipo de pena tenha assolado os sentimentos dela. Ela desligou com um simples “não, obrigada” que saiu correndo da boca para o telefone. Tão correndo que quase se tornou incompreensível.

E só lembrei dessa história por causa da tirinha do Liniers de hoje.

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