16
June
2008
5 comentários
Sobre o meu não-acreditar no design
Achei prudente começar aqui com um texto que já está fazendo um ano. Acho esse texto bom para me apresentar, bom para causar polêmica e bom para compensar a falta de tempo de pensar num texto original, já que dediquei meu fim de semana a por esse blog no ar.
Ano passado acabei escrevendo tal texto em meio inúmeras conversas com o Marcinho, que no ato já o respondeu. Segue então meu texto:
Defender um paradigma no qual os profissionais têm que levar “a sério a empresa [de design] como empresa, no sentido de que ela tem que dar resultado, temos de viver dela” só pode ser interpretado de duas formas: ou como uma anedota, tal a sua obviedade (pois ninguém, em são consciência, pode defender postura oposta – ou seja, uma profissão da qual não se pretenda viver dela) ou como um discurso que não quer dizer o que está dizendo e que está dizendo o que não quer dizer. *
Realmente parece estar na moda o não-acreditar no design (a não ser como um propulsor de mercado); talvez seja uma reação à outros modismos como o ecodesign, design social, design sustentável etc. De fato cheguei a afirmar que não acredito mais no design.
Por esses dias, muito em parte por conversas com o Marcinho, mas também influenciado por algumas leituras (como por exemplo o livro recém lançado do Flusser, O mundo codificado), concluí que eu estava errado. O design tem todo um “conhecimento” que ainda pode contribuir muito para a melhoria do mundo. O problema está no fato de eu (pessoalmente) não ver como exercer o design desta maneira no mundo como ele está hoje. As amarras do mercado – todo o entorno socio-cultural em que vivemos – parecem contribuir para que ele seja uma “profissão”. Exatamente um sentido que contribui para a manutenção de tal entorno socio-cultural.
Dessa forma é difícil acreditar que o design consiga algo de efetivo em relação à alguma mudança-melhoria no mundo. Por isso parece que não há saída para os designers: eles dependem de uma mudança socio-cultural (ou até política) para poder recuperar grande parte das potencialidades. Por fim, contribuir para essa mudança social passa a ser o que vejo como principal contribuição que podemos dar em direção a qualquer mudança-melhoria.
Buenos Aires, 1º de Agosto de 2007
–
* VILLAS, BOAS, André. A equivalência dos discursos opostos: design como arte, design como marketing. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DE PESQUISA EM DESIGN, 2. 2003b, Rio de Janeiro. Anais…. 1 disco compacto.
5 comentários
Do jeito que você escreveu não dá pra perceber que o meu texto era uma “referência” à Gigi D’Agostino >:-)
I still believe in DESIGN
I just don’t care what you’ve done in your LAYERS
Baby I’ll always be here TWEAKING FLASH
Don’t leave me waiting too long, RENDER FAST
I-I-I-I still believe in DESIGN
There is no choice, I belong IN A MAC
Because I will BE IN EYEPUNCH someday
You’ll be my baby and we’ll BECOME TABLELESS
Concordo com algumas partes deste texto, mas afirmo que a primeira mudança deve vir do ensino do design, ou melhor, do aprendizado do design. Sempre discuto sobre esses temas em meu blog… vejam no link: http://www.desenhoindustrial.org/design/design-teorico/
Temos primeiro que definir o que é design….
Salve salve, Danilo,
Bem-vindo ao blog. Espero que goste do que publicamos aqui e não espero que concorde com tudo mesmo.
Vou ler seus textos, pode ter certeza.Aliás, já dei uma lida nos últimos posts da categoria que você linkou, e, na verdade, revivi um momento pelo qual já passei: o momento em que eu achava que era preciso definir o que é design. Pra mim, essa discussão está superada pois não acredito mais nela, entretanto acho fundamental ter passado por ela!
Quanto à educação, considero sim um grande problema (justamente pois a educação que deveria ser solução). Até espetei um pouco alguns dos meus professores no meu discurso de homenagem aos mestres quando me formei… Mas como digo lá (mais uma vez com contribuição do Marcinho, diga-se de passagem), também temos nossa culpa.
Por isso que valorizo atitudes como a sua que busca pensar e escrever sobre design!
Grande abraço.
Du, discordo. Não acho que os designers dependem de mudanças sócio-culturais para recuperar a capacidade potencial do design. Pelo contrário, acho que tais mudanças só virão conforme nós, designers, nos mexermos para isso. Todo design minimamente decente gera mudança cultural. Se não gera, é tranqueira. O que você está fazendo, criando um blog e um sistema de discussão do assunto é de uma certa maneira (no meu modo de entender), uma expressão de fazer design. Como a nova lei seca que esvaziou de carros os bairros boêmios aqui de sampa na última semana se mostrou um exemplar exercício de design urbano. Quanto ao trecho: “difícil acreditar que o design consiga algo de efetivo em relação à alguma mudança-melhoria no mundo”, indico uma sapeada na exposição http://other90.cooperhewitt.org/ que rolou ano passado no museu de design Cooper Hewitt em Nova York e que mostra objetos projetados para populações pobres ou miseráveis (other 90%).
Longa vida ao blog! Pra começo está promissor.
[...] cerca de um ano atrás, um nobre amigo escreveu um texto curto sobre o não-acreditar em design. Nele, o Ceviano em questão (Eduardo Gonçalves) afirmava que voltou a acreditar no [...]
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