Cultura em processo

20
June
2008
7 comentários  

Porquê as pessoas fazem o que fazem?

Por Cuducos

Quem me conhece, ou já passou pela minha página aqui no blog (ou pelo meu currículo lattes), sabe que meu foco de pesquisa no momento é sociologia do consumo. Um tema que ainda devo escrever aqui algum dia é que não assumo o discurso da pós-modernidade, vendo ainda muito valor e muita potência nos clássicos para explicar a contemporaneidade. Com isso em mente, muitas vezes acabo recorrendo á uma tipologia para entender a ação das pessoas na sociedade – uma tipologia que é de Max Weber. Ela tem se mostrado muito ampla para mim e venho compartilha-la aqui. Caso alguém se interesse, podemos debater e compara-la com outras nos comentários.

Uma “teoria da ação” é um conjunto de assertivas que se propõe e explicar o porquê de cada ação de cada indivíduo. Se tomarmos, por exemplo, a grande pergunta de Mary Douglas & Baron Isherwood – no livro O mundo dos bens: para uma antropologia do consumo – “por que as pessoas querem bens?”, poderíamos inclui-la na questão do porquê as pessoas fazem o que fazem. Em outras palavras, o que proponho é que essa tipologia de Weber tem se mostrado muito válida (também) nas questões de ação econômica (nas escolha do consumidor, no caso do exemplo dado aqui). Nas discussões do Nusmer (núcleo do qual faço parte), é recorrente quando criticamos autores mais próximos do século XXI (como Bourdieu ou Granovetter) recorrermos a Weber e sua tipologia da ação social.

Para o sociólogo alemão, em um trecho do início do primeiro capítulo de sua obra póstuma Economia e sociedade, ele afirma (quebrei linhas em pontos específicos para facilitar a vizualização):

A ação social, como toda ação, pode ser determinada:

1) de modo racional referente a fins: por expectativas quanto ao comportamento de objetos do mundo exterior e de outras pessoas, utilizando essas expectativas como “condições” ou “meios” para alcançar fins próprios, ponderados e perseguidos racionalmente, como sucesso;

2) de modo racional referente a valores: pela crença consciente no valor – ético, estético, religioso ou qualquer que seja sua interpretação – absoluto e inerente a determinado comportamento como tal, independente do resultado;

3) de modo afetivo, especialmente emocional: por afetos ou estados emocionais atuais;

4) de modo tradicional: por costume arraigado.

Esse é o texto original, sucinto e objetivo. Talvez valha a observação que os grifos são do próprio autor, que os tipos são “ideais”, ou seja, não se pretende explicar cada ação por um (e apenas um) dos tipos, mas, ao contrário, admite-se que cada ação pode ser explicada por um ou por uma combinação desses tipos, incluindo variação de intensidade entre eles.

Gosto de exemplos para facilitar a compreensão, e um que gosto de usar para explicar essa tipologia da ação de Weber é a escolha de um aluno do ensino médio por prestar vestibular para medicina: essa escolha pode ser feita pois o indivíduo acha que ser médico é uma garantia de bons salários (ação racional com referente a fins); por outro lado, a escolha pode ter base no fato de o indivíduo acreditar que ser médico é uma profissão nobre e respeitável (ação racional referente a valores); pode ser que a mãe do indivíduo tenha uma doença grave e ainda incurável que o motive a estudar medicina para achar a cura e salvar a pessoa amada (ação afetiva); ou ainda, pode ser que na família do indivíduo, seu tataravô tenha sido médico, assim como seu bisavô, seu avô, seu pai e ainda um punhado de tios, tias, primos etc., sendo que é praticamente uma tradição na família ser médico (ação tradicional).

Assim, apresento aqui a tipologia da ação de Max Weber. Como já disse, ela tem sido uma ferramente teórica potente nos meus estudos e espero que ajude a mais alguém.

E aguardo os comentários!

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7 comentários

gi 24/06/2008 16:40

interessante, inteligente, e bonito o novo blog!
parabéns, tenho certeza que gerará bons frutos :)

Henrique César 04/08/2008 13:55

Acho interessante a sua idéia de pesquisar sobre Sociologia do Consumo. Assim como é substancial a adoção de teóricos clássicos, como Weber, de quem você dá o exemplo. Tenho lido um sociólogo que, como você diz, assume o discurso da pós modernidade, e tenho achado extremamente interessante. O nome do autor é Zigmunt Baumann, o livro que estou lendo se chama “o mal-estar da pós modernidade”. Como você pode reparar ele se baseia no clássico de Freud (O mal estar da Civilização) e, a partir daí, teoriza sobre as diferenças entre as visões moderna e pós moderna. É um pós moderno que adota clássicos (Weber, Marx, Adorno, e muitos outros) e modernos. Como é meu primeiro contato com essas idéias, não posso afirmar que é “isso e acabou”, nem tenho capacidade, mas, a título de sugestão, posso afirmar que é muito interessante. Inclusive a visão de “Consumo” pós moderno é substancial nas suas idéias. Sugiro que de uma espiada. Boa sorte.

Cuducos 04/08/2008 17:11

Salve salve, Henrique!

Eu conheço um pouco de Bauman sim. Li grande parte do Vida líquida (especialmente pelo capítulo Consumidores na sociedade moderna líquida), mas, no geral, me incomoda uma coisa nele: parece que muitas vezes ele trata o consumo por uma face de síndrome consumista e, quando isso acontece, o consumidor parece perder sua força de agir, seu poder de escolha, ficando simplesmente sem opção a não ser seguir a moda…

Como eu disse, as vezes ele PARECE adotar essa abordagem (e, em outras vezes, não). Poder ser uma chatice minha se preender a isso. O fato é que, quando sinto essa pressão unidirecional de um síndrome consumista, desconfio um pouco.

Mas, de qualquer maneira, acho uma leitura das mais interessantes e atuais (mesmo eu acreditando que muito do que Bauman diz já estava em Simmel a um século atrás).

Muito obrigado pela visita e volte sempre =D

Marcinho 14/09/2008 14:42

Um, cara, dividir o ser humano entre “racional” e “afetivo” é beeem útil… a CURTO prazo! Essa divisão não se sustenta. E note que ela está implícita na tipologia do tiozinho, de forma que esse papo de “cada ação pode ser explicada por mais de um…” leva uma cortada do Ockam…

O que quero dizer é que, não, as pessoas (e os bichos em geral) não pensam “vou fazer isso para aquilo”, e nem “vou fazer isso por esse e essa valor”, e nem tem suas capacidades racionais relegadas a segundo plano frente a sentimentos.

As formas de agir são contínuas, várias vezes parecidas com “processos de decisão orientados para objetivos”, mas praticamente sempre muito mais complexas e indistintas que isso.

Pra simplificar: se você pergunta pra alguém porque ela fez isso ou aquilo, ela vai te inventar alguma razão, mas no fundo NÃO TEM PORQUE. Ela fez e pronto!

Dá pra analisar as decisões, claro, e uma avaliação dos resultados esperados de cada coisa é uma ferramenta de análise e nada mais.

Pra essas (e outras) questões, sempre me parece mais “sensato” o campo da biologia e da ecologia, no quesito importar metáforas…

PS.: 2 newline = 1 parágrafo, pleeease

Cuducos 15/09/2008 14:37

Antes de mais nada, o mais simples:
PS.: 2 newline = 1 parágrafo, pleeease
Obrigado, corrigi o CSS!

Mas enfim, de modo geral, pelo seu comentário, vi que faltou no meu texto uma explicação sobre o conceito de tipo ideal que Weber utiliza. Em suma, isso está na raiz de sua tipologia da ação. O importante nesse ponto é que, se você não aceita os tipos ideais como ferramenta de pesquisa, obviamente, não vai concordar com todo o resto que dele provém.

Nesse ponto acho que o que você quer discutir é a utilidade de tomar os tipos ideais como ferramentas, e não essa tipologia específica.

Por fim, não entendi teu paralelo com a biologia/ecologia e ainda me ficou uma pergunta: como fazer sociologia se não se tem um porquê das ações das pessoas? Parte-se para uma abordagem institucionalista (como Durkheim), para apelo à Dionísio (como Nietzsche) ou o que?

Em uma discussão a respeito da epistemologia das ciências, tendo a ser simpático ao pensamento nietzschiano (e, em especial, a morte de Deus), mas se tomarmos isso como partida, está desmontada a sociologia (clássica, que é o caso de Weber) e todo o aparato científico, a não ser as abordagens contemporâneas como a razão sensível de Maffesoli.

O que eu vejo de frutífero em Weber é que ele permite um diálogo interessante: é um acadêmico clássico, ou seja, está no campo da ciência moderna; mas, ao mesmo tempo, consegue dialogar com Nietzsche, crítico da modernidade como um todo. O sociólogo alemão, com sua teoria da modernidade, coloca limites à ciência (como no Ciência como vocação, por exemplo) e, dentro dela, chega a uma visão crítica da modernidade muito semelhante a de Nietzsche.

Enfim… isso já é muito distante da tipologia da ação weberiana, que é o assunto principal por enquanto. Mas prometo, para o futuro, algum texto mais epistemológico e/ou nietzschiano.

Obrigado pelas críticas e volte sempre =D

Marcinho 22/09/2008 18:37

>> mas se tomarmos isso como partida, está desmontada a sociologia

Acho que não, hein? Esses argumentos “escatológicos” do tipo “se não existe verdade então a sociedade vai decair em barbárie nunca me convencem…

Mas sobre os tipos ideais… Acho que o que me incomoda é justamente aplicar uma tipologia sobre o comportamento humano. No sentido de que não sei se existem “as fronteiras” entre uma coisa e outra pra apoiar essa tipologia. Ou seja, não é que os tipos não aparecem puros, é que eles não existem puros, e, de fato, não existem ponto. As cerquinhas que ele constrói só servem pra ele fazer uma interpretação, mas duvido que sirvam para ajudar a compreender.

Tudo bem, eu admito que os comentários sobre a ecologia foram “misteriosos”, e juro que vou tentar arranjar tempo pra desenvolver isso, mas aaaai acho que pode ser mais difícil do que parece…

E sobre o CSS…. aaaaaaaaaaaaaahhhh!

Gabriel "Comunição Social" 24/11/2008 22:32

Brilhante definição, muito simples de entender , obrigado !

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