Cultura em processo

26
June
2008
6 comentários  

Quem quer saber o que é design?

Por Cuducos

No artigo Past, present, and future in design for industry*, John Heskett utiliza a seguinte frase: design is when designers design a design to produce a design. Nessa passagem o autor não tenta definir design, mas ao meu ver o faz com gigantesca habilidade. A frase é confusa e não diz absolutamente nada para quem não sabe o que significa a palavra design. Aliás, até para quem já tem alguma concepção sobre design, a frase pode beirar a insanidade ou a inutilidade. Mas eu acho que é por ai que as coisas devem caminhar.

Por exemplo, um dos cinco artigos mais citados do Journal of biomolecular screening é um tal de Fluorescence polarization and anisotropy in high throughput screening: perspectives and primer, o que eu não faço a mínima idéia do que seja ou sobre o que trate. Mal saberia esboçar um esboço de uma ínfima definição sobre essa área e não faço idéia do que trate tal artigo (por mais que ele deva ser uma importante referência nessa academia). E isso não me importa, assim como não me faz a mínima falta.

A questão é que não acho importante a preocupação em definir o design (ou definir qualquer outro campo, área ou profissão). Sinceramente não me preocupo com o que é design. Por ter formação nessa área consegui ver que os designers se consideram profissionais de suma importância para o mundo. Na introdução do livro What is graphic design? (obrigado, Sagaz, pela indicação), Quentin Newark afirma que se o design gráfico fosse banido, ou simplesmente desaparecesse da noite para o dia (…) tudo teria que ser sofrivelmente escrito a mão. Essa afirmação (e no parênteses, reticência, parêntese tem mais algumas previsões apocalípticas) me leva a pensar duas coisas: ou os designers são egoístas e realmente acreditam que o mundo gira em função deles, ou eles só estão se esforçando para se convencer que são úteis para alguma coisa nessa vida (o que tem lá sua utilidade).

Acredito ser infinitamente mais importante pensar que a produção do design é um fator importante num aspecto mais amplo de nossa sociedade, principalmente no campo cultural e no campo econômico. Inegável que é quase inconcebível um mundo sem produtos concebidos por designers. Assim como também é inconcebível um mundo sem a produção de micreiros. E temos também publicitários, artesãos, artistas etc. Cada um fazendo seu trabalho, e contribuindo para a cultural de nosso tempo. E é por isso que acho inúteis muitas das tentativas e esforços para definir o tal do design. Por um lado, quem tem que saber o que é design são os próprios designers – e esses por mais que não consigam escolher as palavras para cunhar uma definição, sabem muito bem o que é e como fazer design (afinal, são designers, oras). Por outro lado, não interessa para mais ninguém saber o que é design; interessa sim a contribuição que um designer pode trazer ao mundo – tanto quanto a contribuição que um cientista biomolecular, ou quanto a contribuição de qualquer outra pessoa, seja lá qual for a formação ou especialização profissional.

Ninguém quer saber o que é design, a não ser os egoístas (que acham que o mundo gira em torno deles) ou os egocêntricos (que querem garantir que seu campo seja valorizado). Para o resto do mundo o que de fato interessa é a produção do design – e, quem realmente gosta de design, é nela que deve focar seus esforços.

* Caso você tente acessar o artigo do Heskett e se depare com a mensagem You are not currently authorized to access this article, tente acessa-lo a partir de sua universidade (seja por um laboratório ou por uma conexão VPN, por exemplo), pois muitas têm (a UFSC é uma delas) algum tipo de convênio com a JSTOR (e com muitos outros sites pagos de periódicos), sendo que basta que você acesse o site por um computador da instituição e os artigos ficam liberados.

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6 comentários

Barbara 27/06/2008 17:26

Olha, eu não me julgo egoísta, mas estou constantemente me fazendo essa pergunta. Tanto que estou fazendo mestrado para justamente satisfazer essa inquietação que me acompanhou durante toda a graduação.
Vejo o pessoal que se forma na área partindo para um estudo posterior, seja ele na forma de outra graduação ou numa pós, lá pelo marketing, pela sociologia, pela comunicação. Eu fui para a história da arte. Na verdade, a história social da arte, misturada com um pouco de semiótica greimasiana. Atualmente estou mais inclinada a achar que existem vários designs, mas o que eu quero fazer é um bem específico, e só vejo como fazê-lo – e ser designer – sendo acadêmica. Talvez por influência da Ellen Lupton, o que me deixa com uma ponta de desconforto.
Para não me alongar muito, achei interessante você falar que o que interessa (e fico aqui com a interpretação de que você se inclui no tal ‘resto do mundo’) é a produção do design. Eu também concordo. Mas quem produz? Para quê, porquê, e, principalmente, o que qualifica alguém para interferir tanto na cultura visual e na produção de sentidos e produtos industriais?

Cuducos 27/06/2008 18:00

Salve salve, Barbara! Obrigado pela visita e, principalmente, pelo comentário.

Dos seus questionamentos finais fiquei curioso por um específico: o que qualifica alguém para interferir tanto na cultura (…).

Na minha opinião, a cultura não pode ser (ou melhor, não é) restrita. Ela é, justamente, o contrário. É a nossa própria experiência no mundo que construi a cultura. Um ticket de estacionamento, o formato de um tijolo, uma gíria, uma ferramenta qualquer, tudo serve como “ingrediente” para a cultura.

Vejo a cultura nas pequenas coisas (sou simpático as sociologias de Simmel) e não consigo pensar que alguém tem uma “qualificação” (e, por consequência, outro não a tem) de interferir (ou não) na cultura. Por essa linha me coloco como o resto do mundo sim =D

Barbara 28/06/2008 21:51

Oi Cuducos,
Pois é, concordo. Mas pra mim, pensar em “interferência” na cultura visual – e só uso esse termo porque vim de um seminário com esse nome, lá da UFG: é um termo que me incomoda! – é pensar numa postura política. Se pensarmos no design como organizador, atividade projetual, podemos dizer que é intencionalmente que se faz design. Só que há sujeitos fazendo design – sujeitos históricos, ainda – e fico pensando, quem é que faz? Não acredito na neutralidade da atividade. Me incomoda que quem faz design não lê, não tem posicionamento crítico. Nesse sentido, pensar sobre o que é o design pode até ser reserva de mercado boba – ou egocêntrica – mas também pode ser ligado à ética do fazer, e mais, do estar no mundo, e, para usar suas palavras, servir de ingrediente da cultura, mas consciente de si.

Cuducos 29/06/2008 20:52

Também me incomodo com o fato de os designers (ou muito deles) não terem posicionamento crítico. Na verdade acredito que o design não tem um discurso próprio, não tem propósito atualmente. Por sinal, esse foi o tema do meu TCC

Barbara 29/06/2008 20:59

E eu não sei? Já li ele umas duas vezes. Desculpe parecer stalker, mas é por causa dele que estou aqui.

manu 07/07/2008 17:35

Primeiro parabens a vc e ao Rafinha pelo site. Muitos sabem meu enorme interesse por esse assunto, aliás vejo que esses interesses nasceram das mesmas inquietações, lá na graduação, quando sentimos uma necessidade de uma humanização na nossa formação e questionamentos sociais, que vão muito além de analisar formas e cores. Eu também sou uma que só conseguí prosseguir no Design atravéz da crença do seu potencial e que eu poderia fazer diferença na academia, nisso que eu sempre considerei uma falha, o olhar pra sociedade e cultura, lembrando que todo homem interfere sim na cultura da sociedade, aliás cultura é exatamente isso, interferencia do homem em seu contexto social. Fico feliz que nossa geração de “designers” tenha pessoas como vocês pra fazerem valer as coisas pelas quais eu busco.

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