14
July
2008
2 comentários
Igualdade e singularidade: tensões da nossa cultura
Muitas vezes, quando leio sobre as revoluções que nos tiraram da Idade Média, a começar pela Revolução Francesa e o tripé de liberdade, igualdade e fraternidade, me incomodo pois não vejo, nos dias de hoje, tais ideais revolucionários realizados: vejo sim um mundo pouco fraternal, muito desigual e com uma liberdade muito próxima á lei da selva. Contraditoriamente, vejo que inúmeras mudanças ocorreram com base nesses mesmo ideais, fazendo ser impossível ignorar essas revoluções.
Uma leitura que muito me confortou nesse sentido, principalmente por abraçar e admitir algumas contradições, foi um conunto de textos de George Simmel (agradeço o Prof. Carlos Eduardo Sell pela disciplina que me colocou em contato com esse autor). O que publico aqui escrevi com base no texto O indivíduo e a liberdade, capítulo de um livro organizado por Jessé Souza e Berthold Öelze sobre Simmel.
Com o fim da Idade Média, a figura do indivíduo ganha destaque. Antes o comportamento era praticamente determinado pela posição social, sendo que as diferenças que existiam (além das socialmente determinadas pela posição) somente faziam sentido com base em um “desejo individual”, como diz Simmel, “de aparecer, de se apresentar de maneira mais favorável e merecedora de atenção do que era permitido pelas formas habituais”. Tal situação foi suplantada pela emergência do indivíduo livre e igual.
A noção dominante, a partir daí, vai numa outra direção, segundo um outro ideal de individualidade, cuja motivação mais íntima não é mais a distinção mas sim a liberdade.
O que entra em pauta é, nesse momento, a liberdade com base na igualdade: “todas aquelas opressões [da Idade Média] seriam desigualdades artificialmente produzidas”, logo, todos os homens são iguais (não determinados pela sua posição social, por exemplo) e livres (por exemplo, de comportamentos que, antes, eram determinados por sua posição social).
Passada essa primeira fase, já em meados do século XVIII, parece que ser igual não confortou o indivíduo: começa a entrar em cena um movimento em sentido contrário; um conjunto de valores que buscava a desigualdade passa a se antepor frente a “fundamentação da liberdade pela igualdade”.
Tão logo o eu no sentimento da igualdade e universalidade sentiu-se forte o bastante, passou a procurar a desigualdade, mas apenas aquela que surgia como uma lei interna.
Na verdade o argumento é que sendo todos iguais, a figura do indivíduo não parecia plena, pois ainda cada um não era, de fato, um indivíduo especial, diferente de outro, distinto, singular. “Os indivíduos tornados autônomos querem agora distinguir-se entre si“. Simmel afirma, inclusive, que nessa etapa posterior, “todas as relações com os outros são, ao fim e ao cabo, apenas estações no caminho em busca de si”.
É por essas vias que o conceito de liberdade e igualdade se chocam. E é por ai que começo a entender os fracassos do projeto da modernidade. Com certeza um grande grupo de autores vem tratando disso: Jameson, Bauman, Lipovetsky, Maffesoli etc. Mas o resgate de Simmel tem, para mim dois pontos muito relevantes: além de conseguir ver tais falências do projeto moderno com cerca de 100 anos de adiantamento em relação à esses autores do século XX, ele vê os defeitos do projeto moderno muito mais próximo de sua gênese (e não lá na outra ponta, na pós-modernidade, como querem alguns).
A obra mais clássica de Simmel, A filosofia do dinheiro, não está traduzida para o português (o original é em alemão e sei de traduções para o inglês, francês e espanhol). Mas existe considerável bibliografia do autor em português e ainda importantes livros de comentadores.
2 comentários
Creio que toda análise histórica pode (e deve) levar também em conta a neurociência e a psicologia. Explico: quando falamos em indivíduos de 7 séculos atrás, não podemos fazer uma “comparação direta” com o “indivíduo do século 21″. Não teve alguém que disse que todo o conhecimento que um cidadão naquela época adquiria durante toda sua vida caberia hoje em uma página do New York Times? Sendo assim, quando analisamos este indivíduo repensando sua posição na sociedade, não dá pra ignorar o fato que o cérebro do moçoilo era do tamanho de um limão.
E é aí que entra o que acho mais interessante nesses estudos “evolucionários” – afinal, pode-se dizer a “prática do pensar” trouxe um “upgrade” para o cérebro do homem moderno? Ou a tábula rasa de Locke estava certa e um cara desses trazido para os dias de hoje tem todo o potencial para se tornar um gênio?
e outra coisa: pensar assim me classifica como eugenista?
Pegando o gancho do nosso amigo pizzane, venho perguntar e colocar alguns pontos.
Sim acho que as percepções de mundo que as pessoas de séculos passados tinha eram bem diferentes da de hoje. ha algum tempo li um auto DAMÁSIO, António R., que fala um pouco disso, ele direciona um pouco a questão de que o nosso self e bem mais alimentado de informações que das pessoas do passado, mas não diz nada, sobre esta coisa do conteúdo de informação ser limitado. Na real as percepções eram diferentes assim cada ser tem uma percepção do mundo e isso não é manipulável através de quantidade de informação.
Ex: um sertanejo do interior do país tem bem mais percepção da natureza e das alterações que isso e capaz de causa na terra do que qualquer um.
Acho que é isso. Depois comento a coisa do texto.
Abraços
Comente