Cultura em processo

17
Agosto
2008
4 comentários  

Bourdieu, habitus e campo

Por Cuducos

Recentemente me envolvi em algumas discussões a respeito da contribuição de Bourdieu para a chamada sociologia econômica, ou seja, compreender quais as principais contribuições desse socioólogo francês para a compreensão das trocas na nossa sociedade. Assim, como achei a discussão interessante, apresento-a bem resumida e simplificada nesse texto.

Bourdieu faz sua grande contribuição para o pensamento da economia e da sociologia econômica com os conceitos de campo e habitus. Para compreender o que se entende por campo, pode-se imaginar uma disputa onde cada agente busca concetrar consigo certos capitais. Considere ainda que existe uma diversidade de tipos de capitais – como o financeiro, cultural, tecnológico, jurídico, organizacional, comercial ou simbólico. Assim, de acordo com a quantidade de capitais de cada agente, fica moldado uma posição de cada um deles, e, ainda, tal posição é determinante para o que cada agente pode fazer.

Para tentar exemplificar essa primeira parte, imagine uma empresa que detém certa tecnologia que só ela é capaz de reproduzir. Isso confere à ela uma posição específica que muda o leque de opções de ações dela em relação às concorrentes, e, ao mesmo tempo, indica certos comportamento para o campo como um todo: ela deve conseguir vender mais produtos, por ter uma tecnologia “diferente”, inclusive por preços mais altos em relação à produtos com tecnologia semelhante, porém inferiores; da mesma forma, essa mesma empresa pode estar sujeita a alguma regulação do Estado, que detém outro tipo de capital etc.

Continuando na exploração teórica, conclue-se que tais capitais, bem como sua distribuição, possuem um efeito estrutural no campo. Em outras palavras, a estrutura de um campo depende da concentração de capitais (e de cada tipo de capital) em cada um dos agentes envolvidos. Essa observação já propõe uma superação das teorias econômicas clássicas (aquelas baseadas em Adam Smith, na lei da oferta e da procura, na mão invisível do mercado etc.), a medida que não supõe agentes iguais.

Bourdieu propõe ainda que a diferenciação dos tipos de capital também seria uma superação em relação á verdade dos preços (idéia referente à auto-regulação dos preços pelo mercado), pois considera que a racionalidade da teoria econômica só seria capaz de operar com cálculos objetivos, ignorando aspectos subjetivos na conduta dos agentes – que seria considerada ao pesar capitais de diferentes naturezas. Nesse ponto é interessante notar a distinção que o autor pontua entre conduta racional e conduta razoável:

Não se pode fazer sociologia sem aceitar o que os filósofos clássicos chamam de “princípio da razão suficiente” e sem supor, entre outras coisas, que os agentes sociais não agem de maneira disparatada, que eles não são loucos, que eles não fazem coisas sem sentido. O que não significa supor que eles sejam racionais, que têm razão em agir como agem ou mesmo, de maneira mais simples, que eles tenham razão em agir, que suas ações sejam dirigidas, guiadas ou orientadas por essas razões. Eles podem ter condutas razoáveis, sem serem racionais; podem ter conduta às quais podemos dar razão, como querem os clássicos, a partir da hipótese de racionalidade, sem que essas condutas tenham tido a razão como princípio. Eles podem se conduzir de tal maneira que, em uma avaliação racional das probabilidades de sucesso, pareça que eles tinham razão em fazer o que fizeram, sem que tenhamos razão ao dizer que o cálculo racional das probabilidades tenha sido o princípio das escolhas que fizeram.

Assim, o sociólogo ainda considera que uma conduta razoável seria aquela com base “em algo que se possa compreender a partir de um princípio único ou conjunto de coerente de princípios”. Pode-se concluir que, na esteira desse raciocínio, faz sentido o conceito de habitus, uma “espécie de sentido do jogo que não tem necessidade de raciocinar para se orientar e se situar de maneira racional no espaço”, um “funcionamento sistemático do corpo estruturado”.

Dessa forma Bourdieu considera que os agentes não calculam racionalmente o tempo todo, mas sofrem pressões dos diferentes tipos de capitais e agentes. De acordo com elas, chegam a internalizar disposições mais ou menos previsíveis, baseadas nas experiências anteriores no campo, como se pode notar na descrição oferecida a respeito do capital simbólico:

O capital simbólico reside no domínio de recursos simbólicos baseados no conhecimento e no reconhecimento, como a imagem da marca (goodwill investment), a fidelidade à marca (brand loyalty), etc.; poder que funciona como uma forma de crédito, pressupõe a confiança ou a crença daqueles que sofrem porque estão dispostos a dar crédito.

A idéia de habitus e campo, portanto, seria um contraponto ao cálculo racional consciente e objetivo na conduta dos atores. Assim, nas disputas do campo econômico, é favorecida uma visão calculista, mas “a noção de campo marca a ruptura com a lógica abstrata da determinação automática, mecânica e instantânea do preço em mercados entregues a uma concorrência sem limites”, sendo que é justamente na relação entre os atores sob as pressões do campo (que esses mesmos atores constroem) que se firma um ambiente de negociação (em contraposição à determinação de preços pela oferta e procura, como queriam os partidários da teoria econômica clássica).

Por fim, na visão de Bourdieu, inverte-se a imagem de um possível estruturalismo holista (ou seja, uma visão em que o peso da estrutura tem efeito duramente coercitivo sobre o indivíduo) pois “esta visão de ação restitui aos agentes uma certa liberdade de jogo, mas sem esquecer que as decisões não passam de opções entre as possíveis definidas, nos seus limites, pela estrutura do campo”.

Com tal aparato teórico, o sociólogo francês dá conta de trazer para as discussões da economia as dimensões sociais, históricas e políticas  e também de elaborar, como colaca Cécile Raud, uma “teoria da ação em reação tanto a uma visão encantada das condutas humanas – de acordo com a qual os agentes respeitariam cegamente normas e regras sociais – como à visão utilitarista”. Segundo essa teoria, os agentes têm condutas com base nas regras do próprio campo no qual agem, buscando o que, mais uma vez, esse próprio campo define como interessante, através de meios igualmente validados pelo campo. Apesar de o princípio das condutas não ser, necessariamente, o cálculo objetivo, o conceito de habitus infere que os agentes esperem, através de suas disposições internalizadas (ou seja, o próprio habitus), o êxito nessa busca, sendo que, com cálculo ou não, é esse êxito a finalidade da conduta.

Dessa forma, Bourdieu considera as condutas dependentes da lógica dos interesses finais, como se esses fossem próprios da natureza humana. Em uma leitura mais crítica, pode-se afirmar, como o fez Alain Caillé, que o fato dos diversos capitais (como o simbólico, por exemplo) não serem reconhecidos como passíveis de cálculo, não passa de uma “hipocrisia coletiva”, e que, logo, ao invés de pensar as relações econômicas como inseridas nas relações sociais, a proposta vai em direção contrária, fazendo com que a situação se inverta e as segundas fiquem submetidas às primeiras – exatamente contrário ao que se propõe as idéias de habitus e campo, como se pode ver, por exemplo, na introdução de Razões práticas: sobre a teoria da ação.

Em suma, assim como Caillé, Steiner e Raud, é possível encerrar uma leitura crítica a cerca dos conceitos propostos na sociologia de Bourdieu praticamente da mesma forma: questionando a racionalidade e a finalidade nas motivações dos atores.

Nesse texto não me preocupei com manter as citações e referências como as boas práticas da academia recomendam - e fiz isso pois acho que para uma leitura na internet, seria melhor sem aqueles parenteses robustos interrompendo o texto. De qualquer forma, segue ai as referências principais desse artigo:
BOURDIEU, Pierre. Razões práticas: sobre a teoria da ação. Campinas: Papirus, 1996.
_____. As estruturas sociais da economia. Lisboa: Piaget, 2000.
____. A génesis dos conceitos de habitus e de campo. In: _____. O poder simbólico. 7 ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 2004.
_____. O campo econômico. Política & sociedade, n. 6, abr. 2005.

CAILLÉ, Alain. Critique de P. Bourdieu: 1. l’économisme. Bulletin du MAUSS, n. 22, jun. 1987.

RAUD, Cécile. Bourdieu e a nova sociologia econômica. Tempo social: revista de sociologia da USP, v. 19, n. 2, nov. 2007.

STEINER, Philippe. Critique de l’économie politique et sociologie de la connaissance économique. In: _____. L’école durkheimienne et l’économie. Genève: Droz, 2005.
_____. La tradition française de critique sociologique de l’économie politique. Revue d’histoire des sciences humaines, vol. 18, mai. 2008.

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4 comentários

Marcinho 14/09/2008 14:23

Meeeeeeu, vá lá ser esquerdista, mas tudo tem limite!

>> Essa observação já propõe uma superação
>> das teorias econômicas clássicas
>> (aquelas baseadas em Adam Smith,
>> na lei da oferta e da procura,
>> na mão invisível do mercado etc.),
>> a medida que não supõe agentes iguais.

Como assim? Os liberalistas, em geral, **procuravam formas de criar mercados em que os agentes tivessem igual poder**, não supunham ingenuamente que isso fosse “verdade naturalmente”. Tanto que eles pediam que o governo interviesse o mínimo possível (já que o estado é um agente desigual por definição).

Se estamos falando de Adam Smith especificamente, é bom lembrar que o primeiro livro dele é “teoria dos sentimentos morais”, não a “riqueza das nações”. Ele faz sim a ressalva de que a ordem social (principalmente através da moral) é necessária para que o mercado funcione, bem como outras dimensões da vida, e portanto é mais importante.

A questão é que, em geral, economistas acreditam que é mais fácil lidar com questões sociais **usando ferramentas econômicas**, e, bom… pode ser que eles tenham razão.

Estamos tratando de dois assuntos diferentes: sociologia e economia. Não vá confundir as rixas históricas entre essas dois departamentos da academia com uma separação no tecido da realidade!

Marcinho 14/09/2008 14:49

Adiantando, li no nusmer.ufsc essa pérola:

>> abstração que autonomiza artificialmente
>> uma esfera do resto do contexto social

e já previ que a história do sociologia x economia vai gerar uma discussão longa demais. Eu quis dizer uma diferença de método. Mas, sérinho, não vou entrar nesse debate.

PPS.: se vc não me dá <P> eu tenho que cair pro <br>…

Marcinho 14/09/2008 14:50

AAAAAAARG, nem <br>! Arg, arg! Porque só o seu texto merece ser legível?

Cuducos 15/09/2008 14:52

Bourdieu criticava a teoria econômica clássica, uma forma de pensar bem específica e, inclusive, desatualizada, já que essa corrente conta hoje com a teoria econômica neoclássica, mais atualizada. Sendo assim é limitado comparar o argumento bourdiesiano com uma teoria liberal política.

No geral, achei que sua crítica se “auto-responde”. Quando você diz que economistas acreditam que é mais fácil lidar com questões sociais “usando ferramentas econômicas” está resumindo bem o alvo das críticas de Bourdieu. Entretanto ele, ao contrário de ti, não acreditava que talvez esses economistas tivessem razão.

No mais, não estamos falando de dois assuntos diferentes. Estou partindo da sociologia econômica, que começou, de fato, com Comte e Durkheim como rixa entre sociologia e economia, mas que foi revitalizada a partir da dácada de 80, com um enfoque muito mais maduro em relação ao posicionamento de cada uma dessas áreas.

Vale notar ainda, no quesito rixa, que Bourdieu, mesmo mais “maduro”, recaí no posicionamento de Durkheim, ou seja: quer “eliminar” a economia e substitui-la por uma sociologia econômica; tal posição fica longe de ser unânime na sociologia econômica. Eu, particularmente, prefiro ver sociologia e economia como complementares, seguindo a linha de uma autora contamporânea bem interessamte, sobre quem devo escrever meu próximo texto, que é a Viviana Zelizer.

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