Cultura em processo

19
October
2008
4 comentários  

Reflexações: pensamentos e o amanhã

Por Rafael

É engraçado como escrever, algo aparentemente simples, pode ser tão complexo. Acredito que escrever é colocar em palavras algo que está intrínseco, entre alma e espírito, entre crenças e dúvidas, entre o certo e o fluído.

Estou em dívida com o Cuducos e com alguns outros amigos que insistem em me estimular a escrever (obrigado Camila, Clarice, Déia, Heman). Esse blog existe há um bom tempo e o único texto que tinha postado foi o de abertura. Acho que nesse ínterim passei por muitas reflexões e mudanças – ainda bem – e não me sentia pronto nem disposto a materializar toda essa fluidez em palavras.

Acredito que escrever é materializar pensamentos em palavras. Tudo que escrevemos intervêm de alguma maneira na vida de alguém. Pode romper paradigmas, mostrar novos olhares, tem o poder de transformar. E era justamente esse meu maior receio em escrever: será que a partir desse amontoado de palavras minha intervenção poderia resultar em alguma coisa positiva para alguém?

Esse é um blog que pretende pensar cultura. E processo. A cultura está permanentemente em processo de transformação. Ela não é estática-estanque-pronta. Ela é aberta (Eco já falava disso no final da década de 50), colaborativa, individual, fascinante. Tem o poder de mudar o mundo, pois é constantemente construída pelas pessoas. Manifestações culturais só existem porque pessoas se manifestam.

Por melhor que seja o conteúdo de sua mensagem, se ela não é materializada, decodificada, transmitida, qual é a validade de toda reflexão e questionamento? Por isso a cultura está em processo, justamente porque pessoas manifestam-se e junto com elas, seus sonhos, valores, estórias, medos, desejos. É instigante perceber que podemos entender contextos – culturais, econômicos, políticos e sociais – através de manifestações de pequenos grupos e indivíduos.

A idéia de trazer essa reflexão bastante óbvia e pouco embasada teoricamente é dividir uma angústia que tenho em relação aos tempos que vivemos: sinto uma inércia bastante grande. Muitas pessoas pensando, discutindo. Poucas pessoas fazendo. Muitos questionamentos. Poucas soluções, intervenções. Será que é pós-moderno identificar problemas, mas não buscar soluções? Ou o que são soluções em um mundo que os problemas mudam a cada instante?

Todo esse tempo que não escrevi estava envolto nessa sensação: nada representava uma real solução para os desafios e problemas que nos são apresentados todos os dias. Tudo é tão complexo que ficamos perdidos ao ponto de não saber para onde ir, nem o que fazer e muito menos sobre o que escrever.
Essa visão generalista-pessimista das coisas me perseguiu por um bom tempo – depois posso escrever melhor sobre a origem dessas coisas – mas finalmente fui liberto dessa miopia ao entender, durante o oitavo Congresso de Pesquisa e Desenvolvimento em Design – que “Todo ponto de vista é a vista de um ponto” (sinceramente não sei bem ao certo quem escreveu esta frase, se foi o Boff, se foi o Freyre; sei que ela não é minha…risos).

Portanto, se não começasse a materializar meus pontos de vistas através de suportes que possam de fato promover discussão, agregar conhecimento, transformar e re-significar situações de nada adiantaria construir visões desses pontos. Dessa maneira faço um apelo a todos que tiveram a paciência de chegar até aqui: manifestem seus pontos de vista, porque nós fazemos parte desse processo cultural e é nosso dever contribuir com o mesmo. Devemos romper a barreira da discussão e partir para o campo da ação.
Finalizo este pequeno amontoado de palavras contando-lhes mais sobre o que pretendo escrever nesse espaço. Algo que me instiga há certo tempo é a área da antropologia, mais especificamente a área da cultura material. A cultura material estuda os artefatos produzidos por sociedades humanas com o intuito de entender quais são seus valores inerentes que nos permitem compreender melhor essas sociedades. Ultimamente tenho refletido também sobre o campo da etnografia juntamente com outros pesquisadores dessa área (Clarice, Heman…). Curso a graduação em design de produto. Sou orientado na minha iniciação científica por um antropólogo.

Essas áreas do conhecimento que, aparentemente, não se conectam, na minha opinião, deveriam ter uma intrínseca ligação. Acredito que devemos sim agir. Intervir. Mas, sobretudo, devemos saber o porquê fazer isso. No campo do design, isso significa entender as pessoas. Porém ao materializar artefatos, o designer deve ter em mente todo esse entendimento sobre o indivíduo. Como transpor aspectos subjetivos em um projeto de qualquer tipo de artefato? Qual é a importância de todas essas conexões? Ainda não sei, nem sei se o saberei, mas o debate está iniciado e acredito que, juntos, podemos chegar à ações.

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4 comentários

Cuducos 20/10/2008 09:21

Salve salve, meu caro Rafa, que bom te ver escrevendo por aqui!

Será que é pós-moderno identificar problemas, mas não buscar soluções?

Todo esse tempo que não escrevi estava envolto nessa sensação: nada representava uma real solução para os desafios e problemas que nos são apresentados todos os dias.

Na verdade acho que você está vendo o problema pós-moderno e tentando solucioná-lo de forma moderna. Existe na situação pós-moderna um incômodo, mas é só lembrar de Lyotard e a falência das grandes narrativas e, por exemplo, da ambivalência de Bauman parar ver o porquê não existe busca de soluções: não existe “a” solução e, tudo, no fundo, já é uma solução, só que uma solução pós-moderna – fragmentada e ambivalente.

Fernando Galdino 20/10/2008 09:58

Realmente, o amontadoado de informação e o efeito google de que a reposta já existe vc só não fez a pergunta certa é presente.

Exemplão design.

Vc fica meses fazendo um projeto, assim que termina passada umas duas semanas vê um produto igual ao que vc estava projetando, só que obviamente bem melhor resolvido.

(já aconteceu a mim e a amigos algumas vezes).

Sei que nesse mundo que tudo sabe dá mais medo de fazer… se bobear o FAZER precisa de uma arrogancia, prepotencia e uma certa imbecilidade e ignorancia pra poder quebrar as barreiras.

Ou não.

Rafael 20/10/2008 17:10

É muito bom voltar a escrever aqui. E o melhor disso com certeza são as discussões nos comentários.

Cuducos, concordo plenamente com você. Acho que entendi isso, de que não existiria uma grande solução, ou “a” solução, e que pensar dessa maneira consistiria num profundo anacronismo.

A questão do ponto de vista/vista de um ponto reflete minha opinião quanto a toda essa ambivalência e fragmentação do tempo que estamos imersos. Bauman fala sobre esse jogo pós-moderno, da perca da segurança – e das grandes certezas, das soluções que resolveriam todo problema da humanidade – em prol da liberdade. Liberdade que nos impele à ação, a ser somente um pequeno nó desta intrincada rede que estamos submetidos. Porém para ser é necessário fazer, manifestar, demonstrar, intervir.

O que sinto é que fui liberto da segurança moderna, que me impedia de defender o que eu acreditava – por mais que isso mudasse a cada instante, nada mais natural em tempos como os nossos – por pensar que tais coisas deveriam ser certezas/soluções, e como não eram, não deveriam ser expostas.

He-man, esse fenômeno da convergência histórica é bem interessante. Já vivi isso mais de uma vez. Estava pensando uma coisa e conversei com amigos que viviam em outra realidade/estado e era exatamente a MESMA coisa que estavam pensando.

Como transformar a informação em conhecimento? Se temos tanta informação, porque recaímos em idéias parecidas quando falamos, por exemplo, em design? Será que não é porque temos questões parecidas? Não sei.

Mas realmente fazer não é simples. Para romper a inércia do porquê é necessário mais do que vontade. Coragem, talvez? Um pouco de loucura? É engraçado como me parece que o pensar na pós-modernidade é sentir. Pensar é sentir?

Marcio Rocha Pereira 31/10/2008 12:06

>> Acredito que escrever é materializar pensamentos em palavras.

O pensamento então existe antes da palavra, posso te citar sobre esse “fato”?

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