Cultura em processo

31
October
2008
2 comentários  

não é símbolo

Por Baraco

Eu também adoro canetas e a idéia de caneta, principalmente depois que li o “sobre a palavra design” do Flusser, onde ele se refere à caneta como sendo um emaranhado de várias idéias diferentes. E eu também acho que esquecer a caneta é pior do que esquecer o relógio, tanto que não tenho relógio mas tenho uma multidão de canetas pra se adequar aos vários momentos e cadernos e situações (incluindo algumas que servem mais pra prender o cabelo do que para escrever). Agora quando li “Sobre esse tipo de homem que sempre leva uma caneta consigo” não pude evitar pensar que canetas não são símbolos.

Imagine um homem com uma “Lapiseira Lamy de estimação”. Professor de design. Batata! Não só tem uma opinião sobre qual marca de lapiseira ele gosta mais, chega a ter uma “de estimação”! Pode apostar que é professor de design. Eu poderia imaginar isso sem que ele me falasse. Eu poderia “ler” essa informação a partir da lapiseira levada no bolso.

Mas isso quer dizer que a lapiseira é símbolo?

Ela foi usada como símbolo por mim. Eu usei ela para chegar a um significado e, portanto, ela está fazendo parte de uma função-símbolo (pra usar o termo preciso que o Eco prefere). Mas seria igualmente possível olhar para o cara com a mesma lapiseira no mesmo bolso e não tirar conclusão nenhuma? Claro.

Só é símbolo aquilo que é lido por alguém (através de um padrão determinado como uma língua ou um estereótipo de que designers se expressam visualmente). Mas o problema é que essa definição transforma tudo em símbolo. As nuvens do céu podem ser símbolo. As minhocas na terra. Até a caca que a minha descarga não conseguiu despachar pode ser símbolo.

Nesse sentido ingênuo (deixe-me desde já deixar claro que não acho que a Clarice estivesse usando essa acepção quando dizia que a “Caneta é o símbolo de que aquele homem escreve”, mas eu vou chegar lá) nesse sentido dizer que algo “é símbolo” não esclarece nada. É como dizer que a caneta existe. É quase como dizer, só, “a caneta”.

Mas se tudo pode ser símbolo, algumas coisas são mais símbolo que outras. Uma letra, por exemplo. Claro que podemos imaginar que, para um chimpanzé, um grande A numa folha de papel não é muito diferente de outra mancha de tinta em formato aleatório. Mas já começa a ficar bem complicado explicar o que é um livro, essa coleção de manchas de tinta, sem se referir à qualidade de ser-símbolo que as letras têm.

As letras então, além de poderem ser lidas de diversas formas como qualquer outra coisa que exista, foram (quase que com certeza, mas não tanto) feitas para serem lidas. Feitas com a intenção de serem lidas. Eu não me importo com as intenções dos produtores – exemplo Bauhaus que tinha a intenção de não ter estilo mas provavelmente inventou sozinha a idéia de “vender pelo estilo”. Por outro lado, no caso de símbolos, a intenção é importante porque ela cria um jogo de leituras.

E o interessante desse jogo é que ele permite manter a complexidade. Tanto que muitos livros chegam aos milhares de páginas, coisa que não faria nenhum sentido para um homem neolítico. Mas essa complexidade vai se infiltrando no resto da vida, onde ela não foi chamada, até um ponto em que uma caneta se torna símbolo.

Uma caneta de luxo deixada sempre à mostra tem uma intenção. Quem a botou ali (e a mantém ali) quer especificamente mostrar que tem mais dinheiro que você, já que ele pode comprar aquela caneta tão cara. E essa intenção, em alguns casos, pode ser tão explícita e codificada quanto a correspondência de uma letra a um som. Na sociedade egípcia, em que os escribas eram uma casta isolada e cheia de poder político, os instrumentos de escrita deviam ser claramente indicativos de poder.

Mas nesse caso a ligação da coisa com o poder não vem da idéia, não vem da interpretação que o leitor faz, ela vem das próprias relações de poder. Posso entender o relacionamento entre um escriba e um camponês sem entender a gramática da língua egípcia ou os códigos semânticos que os dois usavam para se comunicar. A relação é política (de poder) muito antes de ser simbólica.

Certas pombas bicam as cabeças umas das outras para deixar claro quem tem mais poder. A pomba que bica a cabeça de todas as outras mas não recebe bicadas de ninguém é a “dona da bola”, a que só leva bicadas da primeira mas bica quase todas as outras é a segunda em comando e assim por diante. Chamam isso de Hackordnung ou Pecking Order. Nesse caso, posso até chamar as bicadas de símbolos, mas dificilmente as complicações que existem na língua vão aparecer nesse sistema hierárquico, e nossa metáfora ficaria prejudicada.

A caneta de luxo é um tipo de “bicada”, em que o cara com a caneta que parece mais cara é quem está por cima. Nesse sentido, ela é no máximo um proto-símbolo, uma coisa que sinaliza, mas não simboliza (pense em feromônios que mesmo alterando as percepções do interlocutor não podem ser estruturados num código consistente).

É claro que a complexidade da linguagem vem se esgueirando até aqui. Uma caneta barata que pareça mais cara que a do dono da multinacional pode subverter todo o código de comportamento envolvido na nossa interação. Símbolos só são símbolos de acordo com códigos que possam interpretá-los, e a trapaça mora em que os códigos são arbitrários. Numa cultura em que ser gordo fosse sinal de riqueza um obeso seria muito respeitado, ao passo que nós tendemos a respeitar mais as meninas anoréxicas.

E é por essa razão que de vez em quando (e até comumente) é útil pensar em linguagem quando estamos lidando com situações culturais. Há até quem coloque a cultura como primordialmente um sistema simbólico. Mas, estritamente do ponto de vista da teoria da linguagem, uma caneta não é um símbolo.

Então, quando estamos nos perguntando qual possível relação pode dar tanto valor à assinatura do dono do banco que ela chega a valer mais do que a fábrica de canetas, vale mais à pena olhar para as relações políticas, econômicas, talvez até culturais, do que pensar em símbolos e linguagens. As valorizações e hierarquias geradas nesse processo não vêm da qualidade de ser-símbolo, essa qualidade é que vem das valorizações e hierarquias. Se simplificamos e dizemos que a “caneta é símbolo” estamos perdendo o foco do processo inteiro.

É bem possível que tenha sido a linguagem (e por extensão os símbolos) que nos levaram à esse mundo louco em que uma caneta de luxo pode ser muito mais amedrontadora que um tacape 10 vezes maior que ela. E é bem possível que não dê para entender esse mundo MSN-Hollywood-Dow Jones sem entender os símbolos.

Mas colocar um “é símbolo” na frente de qualquer coisa pode ser uma simplificação exagerada.

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2 comentários

Cuducos 31/10/2008 15:39

Uau! Belo texto!

Fiquei pensando aqui que tenho me deparado com quatro “acepções” de cultura: uns gostam de pensar cultura como símbolos, outros gostam de pensar cultura como valores, outros ainda preferem cultura como cognição e, por fim, tem os que preferem cultura como linguagem.

Depois disso pensei que não dá para localizar a cultura em alguma dessas “categorias”. Talvez seja mais válido pensar a cultura de uma forma mais parecida com a forma que Foucault pensou o poder: o poder não emana de um ponto e é coercitivo em outro – o poder, na verdade, é uma trama de relações de poder. Essa visão gerou uma nova forma de olhar o poder, que ficou conhecida como a “microfísica do poder” – e, dizem, essa mudança foi a mais fundamental das últimas décadas nesse ramo de estudos.

Em outras palavras, não dá para falar de cultura sem pensá-la de forma “microfísica”, ou seja, sem pensar nas relações e interações, pois é a partir delas que se constrói a tal da cultura.

Enfim… pensamentos prematuros ao terminar de ler o texto =D

Fernando Galdino 10/11/2008 15:55

Me lembrei do Vagner Mesquita (lord, de cianorte) q com uma cabeça meio de maluc, meio de engeinheiro, definiu cultura como sendo natureza+gente. Vc tem lá a coisa natural, do jeito que está, aparece uma pessoa, pimba, vira cultura, pq a pessoa já vai querer interpretar a coisa, já vai ler segundo os conceitos que ela conhece, seja o que for. Exemplo bom são bolachas ou ueréva com uma santa estampada. Milagre.

Ou não…

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