Cultura em processo

18
June
2010
10 comentários  

Design thinking ou design bem feito?

Por Cuducos

Hoje meu amigo Fernando Galdino escreveu um artigo no blog onde é colaborador. O título do texto é O que é, o que é? Design thinking. Lá ele se propõe explicar o que é o tal do design thinking. Eu, entretanto, sou bem crítico em relação ao uso e aos significados que esse termo, design thinking, pressupõe. Prefiro discutí-lo de três formas: primeiro, acho que não há ruptura teórica alguma em relação ao que se propõe o próprio design (não o design thinking); segundo, acredito que há – apenas – uma pseudo-ruptura prática em relação aos que se popularizou, no mercado, como design; terceiro, e consequência das outras duas, design thinking não é nada além do que design bem feito.

1. A falta de ruptura teórica

Tomás Maldonado, estudioso do design, escreveu lá na década de 70 que seria substancial ao design (design industrial, na tradução em Português de Portugal que tenho em mãos) “a tarefa de mediar dialeticamente entre necessidades e objetos, entre produção e consumo.” O estudioso argentino ainda continua, nesse texto, com a afirmação de que o design surge enquanto “fenômeno social total”, relembrando a Sociologia clássica de durkhemiana de Mauss.

Não cabe aqui nos aprofundar no aspecto sociológico dessa afirmação, embora fizesse todo o sentido. Prefiro destacar (e desdobrar) o que essas frases pinçadas do livro Desenho industrial querem dizer: elas fazem questão de valorizar a relação do design com três aspectos, que, lá no texto do Fernando Galdino, aparecem como “sociais”, “mercadológicos” e “tecnológicos”. Quando Maldonado abre o livro apresentando o design da forma como resumi anteriormente, ele quer mostrar como essa prática profissional se constrói em diálogo íntimo com diversas instâncias da sociedade. A mais óbvia de todas é a da esfera produtiva: simplificando, ela seria interessada em oportunidades de negócios (lucros) e envolvida por questões tanto de desenvolvimento, quanto de restrições tecnológicas e financeiras. Mas também existem outros diálogos nessas relações sociais que se dão através do design – afinal, Maldonado afirmou se tratar de um “fenômeno social total”, ou seja, um fato que não se restringe somente à esfera econômica. Isso inclui, obrigatoriamente, nessa teoria as relações sociais dos usuários, consumidores, seus problemas, seus valores, suas necessidades, etc. A forma que Maldonado apresenta o design, considera tudo isso como componente da própria gênese, do próprio propósito do design, como escrevi alguns anos atrás.

Enfim, tudo que Fernando Galdino coloca como espécie de pilares do design thinking, (pilares que diferenciaria esse novo modo de fazer design de todos os outros) já estava presente no discurso teórico de Maldonado – que, por sua vez, não rompia com os pressupostos modernistas do início do século XX e final do século XIX. Logo, é por isso que afirmo que não há ruptura teórica no conceito de design thinking. Ele é apenas a celebração do que pensavam alguns dos precursores do próprio campo teórico do design.

2. A pseudo-ruptura prática

Vamos supor que eu fui enfático o suficiente e convenci todos os leitores de que não há, em termos teóricos, ruptura alguma quando falamos de design thinking: isso nos levaria a propor uma nova pergunta, qual seja, o porquê do sucesso dessa ideia – do design thinking – agora. Em outras palavras: o que explicaria, então, o fenômeno da emergência do design thinking como “a buzzword” nos últimos anos?

Ao meu ver – e, mais uma vez, em consonância com o que coloquei em Os propósitos do design, meia década atrás – o design, digamos, contemporâneo, perdeu seus vínculos teóricos e práticos com seus fundadores, com os designers congênitos do modernismo, com os teóricos do que chamei Era dos manifestos. Em outras palavras, o que defendia Maldonado na década de 70, era a contramão do que acontecia, grosso modo, no mercado. Na segunda metade do século XX, em uma sociedade consumada em torno da esfera produtiva, as outras instâncias perdem importância – e, logo, o design também passa a privilegiar a esfera da produção e geração de lucro para as corporações. O clímax desse movimento é o surgimento das dezenas de linhas teóricas de design que consideram a inovação enfaticamente como oportunidade de negócio, se aproximando dos discursos das áreas de gerência, administração e negócios. Nesse cenário o design passa a ser muito “bem visto” pelas empresas, principalmente (e quase exclusivamente) por oferecer boas possibilidades de lucro. Na outra face dessa moeda, entretanto, o que ocorre é a perda dos diálogos com as outras instituições e atores sociais, o afastamento de uma espécie de filosofia que visasse explorar outros assuntos que não as oportunidades de negócios.

Portanto, o que proponho, é que o design, na segunda metade do século XX, se afastou daquilo que foi sua base fundadora, aquilo que se clamava na segunda metade do século XIX e no início do XX. Esse afastamento permitiu que o design fosse assimilado à forma de pensar produtivista do mercado.

Mais tarde, com o “desgaste” dessa forma produtivista-materialista de ver o mundo, toda a sociedade, hoje, se atenta para outras instituições e valores. Logo, o design também.

A experiência do afastamento da prática do design com seus propósitos teóricos iniciais, é, portando, o desvio, e não a regra. Retomar esse traçado original só é uma ruptura em relação ao desvio, e não em relação ao todo da história do design. E é por isso que digo que há apenas uma pseudo-ruptura: aparentemente rompeu-se com o status quo, mas esse status quo era apenas uma visão parcial do que era defendido na origem no design. Uma outra forma de ver, então, o design thinking, é como uma retomada (e relação aos clássicos do design), e não como uma novidade (inédita).

3. Design como ele deve ser

Nessa linha, o tal do design thinking é uma evolução do que já pensavam John Ruskin, William Morris, Walter Gropius e companhia. Claro que não é a mesma coisa, mas não há uma relevante inovação e/ou ruptura entre esses e a nova buzzword. O que mudou foi a sociedade, não o design.

É importante ressaltar que seria injusto cobrar dos fundadores do design metodologias apuradas de ciências sociais. Enquanto Deutscher Werkbund, por exemplo, Marx e Durkheim mal tinham sido enterrados, Simmel e Weber eram novidades na academia, e Malinowski e Mauss não tinham escrito nada ainda. O mesmo argumento vale para as teorias econômicas mais modernas, para os estudiosos de gerência, de administração de negócios, etc.

A minha escolha por Maldonado não é por acaso: ele era um estudioso que chegou depois do auge desses fundadores do design. Fora do design, viveu, também, depois do surgimento dessas ciências todas, bem como viveu no ápice de um mundo focado na produção. Ele, então, é uma espécie de ponto de convergência e amadurecimento de todos esses assuntos, por mais que seu discurso fosse visto (até recentemente) como idealista ou utópico. Hoje reconsideramos alguns valores, temos outras formas de pensar, e o que surge como design thinking ao mesmo tempo que não contradiz o que diziam esses fundadores, é muito próximo do que dizia Maldonado na década de 70. Ainda, pode-se afirmar, que é visto de forma muito mais realista (pois vemos isso acontecendo no mercado) e madura (pois incorpora, naqueles discursos as mudanças que o mundo sofreu nas últimas décadas). Resumindo: é o design como foi pensado em XIX que, com o passar dos anos, amadureceu para não ficar gagá.

Concluindo…

… Maldonado não cita Mauss por acaso. O cita pois já percebia que os grande planos modernistas precisavam de um diálogo aprofundado e complexo com as várias instâncias da sociedade que ele, Maldonado, via entrelaçado no encaixe do design com a sociedade. O que acontece é que hoje, sob o rótulo de design thinking, não achamos isso tudo tão impossível, tão utópico, quanto parecia nas obras de Maldonado, de Redig, entre outros estudiosos do design de umas 4 décadas atrás. Apenas estamos continuando o que vinha sido proposto a mais de um século, agora com uma abordagem prática palpável e um amadurecimento metodológico e científico que é inerente ao passar desses anos todos.

Assim, design thinking é um processo de volta às raízes, e não uma novidade. Se há uma novidade, é que deixamos o desvio que tínhamos pego, e estamos, finalmente, valorizando o que nossos antecessores mais distantes propunham. Estamos fazendo um design que eles olhariam e poderiam, falar, com o orgulho que um avô falaria de um neto que ele admira: isso sim é design bem feito!

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10 comentários

Fernando Galdino 19/06/2010 08:22

Concordo.

Primeiro.
Problema é o seguinte, como já disse, nesse periodo entre bauhaus até aparecimento disso q chamamos design thinking (e acho q tu esqueceu de citar os Eames, a meu ver muito relevantes por terem uma PRODUÇÃO teórica E pratica ASSOMBROSA)nesse meio tempo design virou cadeirinha bonita (design forniture), roupa de marca (designer cloths) e por aí vai. A SOCIEDADE escolheu dar esse sentido ao termo, é assim que o mundo lá fora lê design, é isso que esperam de design.

Aí te pergunto.

O que é mais arrogante? Dizer que toda a humanidade está errada, isso considerando público em geral e SIM boa parte dos profissionais que atuam na área e que ambos sabemos que o grosso pensa dessa forma. Dizer que TODOS devem achar outro nome para o que fazem q design de verdade o buraco é mais embaixo.

OU.

Reconhecer que “ok pessoal, é isso que vocês chama de design? o ápice disso é uma cadeira desconfortável? OK BELEZA! Não é isso que eu estou fazendo e vou chamar o que eu faço de outra coisa” Pq pra ser sincero cuducos, nesse caso, é pura questão democrática. Tem tanta gente achando q design é o troço errado e mudar isso é uma missão impossível que sim, vale a pena desenvolver essa nova área.

Segundo.

Se o que vem se convencionando a chamar de “design thinking” usa: Outras bases teóricas muito além das usadas pelo pessoal da bauhaus; resolve OUTROS PROBLEMAS que são SIM muito mais complexos do que os resolvidos pelos alemães um século atrás, sustentabilidade e globalização para citar dois dos mais cabeludos, e se o MINDSET de projeto é diferente pois conta mais com o usuário no processo de “criação” (antigamente esse só chegava no final) e prototipagem CONSTANTE (outra que só aparecia no final) e ainda hoje é ensinada dessa fomra, cheia de nominhos e melindres como mock-up, modelo volumétrico bla bla bal que até profissionais tem dificuldade de diferenciar onde é um onde é outro.

Cara, quantas mudações determinada espécie precisa sofrer para poder dizer que existe uma nova espécie?

Pq fato. O design que eu faço não é o que o mercado entende como design. E que eu só não, que algumas grandes consultorias no mundo.

Não há caminho de volta, não será possível mudar o que o mundo entende hoje por design, leia-se fútil, raso, frívolo, supérfluo.

É sim uma nova área nascendo e estou do outro lado da trincheira.

denise eler 19/06/2010 12:21

Olá, rapazes

Parabéns pelo post e comentário. É sempre bom ter interlocutores com embasamento teórico para discutir qq assunto, em especial, design. Eu entendo design thinking de duas formas, e recentemente tiver a oportunidade de expo-las para Tom Kelley na ocasiao de sua vinda a BH:
dt (com letras minusculas) é a forma como os designers resolvem problemas. Isto tem mudado desde o início da atividade como profissão. Design já foi orientado às tecnologias, hoje é
(deveria ser) orientado aos usuários, e passará a ser orientado à humanidade (incluindo parâmetros de sustentabilidade ambiental em sua prática projetual). Já DT (nome próprio), é um fenômeno contemporâneo e define a aplicação das metodologias de design na solução de problemas sociais e de negócios (em complemento a problemas de produção de artefatos – uma prática reducionista, como vc pontuaram). Acredito que estamos recuperando nosso ethos original sim, mas que também avançamos muito em termos de práticas inovadoras e estruturadas. O design nunca foi visto como produtor de teoria, mas como uma atividade prescritiva. Acontece que a area amadureceu tanto que tem criado sua propria epstemologia. Que a forma de pensar dos designers tenha sido primeiro objeto de estudo e, agora, modelo para gestores de empresas públicas e privadas é algo a ser comemorado, em minha opinião.

Fernando Galdino 20/06/2010 09:35

Bah Denise. Resolveu o caso.
Vou colar seu comentário no post q originou isso tudo, ok?

Joao 20/06/2010 13:43

Boa Denise. Acho que resumiu a discussao em um paragrafo.
Eu concordo com o Cuducos, como ja tinha comentado no Espaço com Design. Como o Fernando colocou, o design foi sendo cada vez mais vinculado a estética, e os próprios profissionais sendo direcionados para isso, seja pelo mercado, seja pela própria universidade. Porém históricamente a concepçao de design e design thinking é igual.
Porém, pq nao se aplicavam certos conceitos de pesquisa na época da Bauhaus e que hj o “Design Thinking” trouxe a tona?
Justamente pq os tempos são outros, o mercado é outro, oq não era necessário em 1940 hj é necessário. As pessoas estão diferentes, com mais instruçao, com uma maior gama de escolhas, com mais capacidade de comunicaçao, com poder de participaçao. E o design trabalhando com comunicaçao deve evoluir junto com essa atual situaçao social. Concluindo concordo com o Cuducos que o design Thinking não é nada mais senão o design bem feito e entendo o Fernando em defender um nome diferente para uma noção “contemporanea” do design.

denise 20/06/2010 14:27

Mas vocês concordam que há implicações para o ensino de design? Não se fala em stakeholders nos cursos de graduação que conheço, nem nos de pós e técnicos. A visão do estudante é literalmente limitada aos cliente/usuários do produto. Do ponto de vista acadêmico, que justifica a postura padrão dos designers no mercado de trabalho, falta abordar os problemas,
de forma sistêmica, mesmo os que culminam em “mera” produção de artefatos. Então, concordo que DT sempre existiu, mas que a maioria dos designers não está confortável com este recente status da profissão justamente porque não foram educados nesta visão. Alguns adquiriram estas competências em pensar sistemicamente por mérito próprio, como Tim Brown testemunha em recente vídeo no TED. Da mesma forma que as escolas de negócio estão revendo sua ênfase na prática do pensamento puramente analítico, inserindo o DT em suas grades curriculares, penso que as Escolas de Design devem rever seus planos de ensino para que os novos profissionais sejam melhor preparados para serem protagonistas de todo tipo de transformãção social que nossa época demanda, muito em função da crise ambiental. Um beijo para vcs ;*

Ítalo Mendonça 27/08/2010 23:33

É curioso notar como as a releitura desse texto evidenciou dilemas e pensamentos teóricos que não havia conseguido captar na primeira vez que me deparei com este post.

No embalo do meu TCC, passei a notar uma tendência contemporânea de “volta às origens” do design. Assim como a gestão do design enxerga no design thinking uma interessante alternativa para os desafios do ofício, o design da informação encontra em autores clássicos “novas” soluções para problemas atuais. Edward Tufte e Ivan Tschichold são bons exemplos de que o design bem feito preservam características atemporais.


Parabéns pelo texto.
Abraço!

Mendonça 14/03/2011 21:03

“A Ideo conseguiu também associar seu nome ao movimento do design thinking com uma bela jogada de marketing. (…) A agência foi fundada por David, irmão mais velho de Kelley. (…) Em 1978, formou com amigos da faculdade uma pequena empresa chamada David Design. Em 1981, a agência desenhou o primeiro mouse com rolamentos para a Apple, mais barato e mais eficaz do que os similares de então. (…) Nos primeiros anos, David trabalhou para clientes como HP e Xerox. Mas logo percebeu que, se quisesse mudar o mundo, deveria expandir sua atuação. Em 1991, associou-se a Bill Moggridge, que desenhou o primeiro laptop, e Mike Nuttal, especialista em design de gadgets. Surgia a Ideo. O negócio prosperava, mas não na velocidade imaginada por David. Ele já havia desenhado a metodologia que considerava essencial para encontrar novas oportunidades para as empresas. No momento de apresentar uma proposta de trabalho a um cliente, costumava separar as diferentes fases – compreensão dos objetivos, observação, discussão, criação de um modelo – e apresentar orçamentos independentes. Invariavelmente, ouvia dos clientes: “Não perca seu tempo. Comece pela fase três”. David sabia que era justamente nos procedimentos preliminares que estava a diferença em relação aos concorrentes. Até que em 2003 David teve uma idéia marqueteira. Parou de chamar a Ideo de agência de design e inventou o termo design thinking. Os princípios revolucionários formulados por ele foram mantidos. Mas o novo batismo fez barulho, atraiu publicidade e terminou por convencer os clientes mais reticentes. O conceito, portanto, tem apenas seis anos, mas já foi incorporado por agências em todo o mundo. Nesse mesmo ano, David terminou de formatar o movimento do design thinking ao implantar na Universidade de Standford ad. School, um curso multidisciplinar voltado para qualquer tipo de profissional que forma, simplesmente, pensadores do design.” (Ivan Padilla, revista Época, 2009)

Adriana 08/10/2011 15:45

E eu pensei que estava ficando velha e saudosista por pensar assim !!!
Se estou, estou bem acompanhada…
Abraço
Adriana

Leonardo Minozzo 07/01/2012 11:52

Há meia década atrás, o título do meu TCC era pra ser “eu não faço design”, justamente por causa da forma que o design é encarado pela sociedade… mas nenhum professor quis assumir a bronca. Pelo visto eu não estava tão errado assim.

AntiCast 45 – Design Thinking | AntiCast 16/08/2012 09:38

[…] “Design Thinking ou design bem feito?”, por Cuducos […]

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